domingo, 2 de maio de 2010

QUAL A RAZÃO?

Já percebi que via de regra os visitantes deste blog somente comentam os textos que dizem respeito à fé. Artigos com vieses políticos, sociológicos, científicos, como por exemplo sobre certo livro lido por mim acerca do aquecimentismo geralmente são ignorados pelo público cristão. Acaso estes assuntos não deveriam ser alvo de nossa preocupação? Não deveriam compor nossa ordem do dia? Falta-nos interesse ou conhecimento? Acaso os pastores e líderes não têm lido a respeito? Somente alguns poucos se interessam? Se MacArthur, Piper, Stott, et al não escreverem a respeito, restarei alienado? Não deveríamos ser a bússola do mundo? Sim ou não?

Não é de hoje que sofro frustrações com a esterelidade intelectual da Igreja. Fico amuado, constrangido e decepcionado com a nossa capacidade em desperdiçar tanto potencial cognitivo. Aliás, o cognoscível virou algo meio demodê em várias igrejas. Aprende-se o estritamente necessário; não ao conhecimento em si, mas ao mister de se fazer massa de manobra sem esforço. Esta minha impressão. Será que estou equivocado? Acho que não.

Eu penso que fomos criados para a atividade do conhecer, e, conhecer as demais coisas pode também me levar a conhecer um pouco mais sobre Deus. Outro dia eu lia "O universo numa casca de noz" e me espantava com a grandeza do todo-poderoso. Aí percebi que homens como Pascal (não, o livro citado não foi escrito por Pascal), por exemplo, contribuem muito mais para a consolidação da minha fé que muitos tele-pastores por aí afora. Quando conheço mais sobre a imensidão do universo e das galáxias, inevitavelmente sou levado a pensar sobre a grandeza do criador e sustentador de todas elas. Quando leio e conheço sobre processos físico-químicos fico impressionado com o milagre das bodas de Caná. Você já parou pra pensar nisto? Você sabe o tanto colossal de energia que precisa ser dispensada pra transformar moléculas de água em moléculas de vinho? É espantoso! Supremo! Glorioso! Eu tenho crises de êxtase quando conheço essas coisas. Fico catatônico, absorvido pelas lágrimas por saber que o meu Deus é quem eu descubro ser.... E vou  descobrindo mais a cada dia. No entanto, alguns insistem em me chamar de amante do liberalismo teológico, como se o ato de conhecer fosse pecaminoso, proibido... Ora, tenham paciência. Se falo em Justiça Social me acusam de neo-ortodoxismo, como se os profetas Isaías, Malaquias, Ezequiel, Sofonias fossem todos seguidores de Karl Barth. Se falo disso ou daquilo eis que a polícia eclesiástica está a me patrulhar os pensamentos e ações. Vigiam-me porque julgam-me perigoso. Haja paciência.... Muita paciência....

Outro dia vi certa discussão em badalado blog cristão sobre o solene e essencial tema "palavra torpe". A celeuma instalou-se em razão de dada "incontinência" verbal de um desconhecido pastor. A palavra, cunhada de duas letras (imaginem o que quiser), foi alvo da mais "profunda" (também imaginem o que quiser) discussão entre ilustres togados de respeitada denominação evangélica. Nos transformamos nisso?! Façam-me o favor!

Ou sou peixe fora dágua ou há algo de muito podre no reino da Dinamarca. O fato é que muitos de nós padecemos na ignorância que escraviza ou fanatiza. E Deus, o Deus de graça e bondade, não nos vocacionou ao fanatismo. NÃO, ele não nos vocacionou ao fanatismo. Fomos criados pra conhecer e prosseguir conhecendo. 

Mas quer fazer um teste? Leia o texto abaixo e veja se você sabe de quem é a fala? (Sem se utilizar do google, tá?):





- Está podre o meu crime; o céu já o sente. A maldição primeira pôs-lhe o estigma: fratricida. Rezar, não me é possível, muito embora o pendor siga à vontade; a culpa imana vence o belo intento. Tal como alguém que empreende dois negócios ao mesmo tempo, mostro-me indeciso sobre qual inicie, acontecendo vir ambos a perder. Se esta maldita mão de sangue fraterno se cobrisse, não haveria chuva suficiente no céu, para deixá-la como a neve? Para que serve a Graça, se não serve para enfrentar o rosto do pecado? E a oração, não contem dupla virtude, de prevenir a queda e obter completo perdão para os que caem? Alço os olhos. Meu crime já passou; mas, que modelo de oração servirá para o meu caso?"Perdoai-me o crime monstruoso e horrendo?" Não pode ser, que me acho, ainda, de posse de quanto me levou a praticá-lo: o trono, meus anelos e a rainha. Perdão alcança quem retêm o furto? Nos processos corruptos deste mundo pode a justiça ser desviada pela mão dourada do crime, e muitas vezes o prêmio compra a lei; mas não lá em cima, onde não valem manhas; o processo não padece artifícios, e até mesmo nos dentes e na fronte do delito teremos de depor. Que ainda me resta? Tentar o que o arrependimento pode. Oh! Como é poderoso! Mas que pode fazer com quem não sabe arrepender-se?Terrível situação! Ó peito mais escuro do que a morte! Ó alma viscosa, quanto mais te esforças, mais te sentes enleada! Anjos, socorro! Dobra-te, joelho altivo! Coração de aço, fica tão brando quanto os músculos de um recém-nato. Tudo talvez volte a ser como era.

Conseguiu? Difícil né? Tá bom... Pode consultar o "profeta" Google vai... Um conhecido filósofo e literato disse certa vez que os Clássicos são aqueles livros bacanas que todo mundo sabe que existe, mas ninguém lê. Você deve estar rindo da frase né? Eu sei, eu também ri, até porque é uma sacada genial... E bota genial nisso visto que revela o trágico através do humor. Então, pode rir. Mas depois, chore amargamente porque tal situação é lamentável, lastimável, triste, e revela a alienação de todo um povo que se perdeu lendo caras e bundas (bunda é palavra torpe? Se for, desculpem-me os mais escrupulosamente recatados). 

Você conhece Neruda? Garcia Marquez? Já leu os textos mágicos do Bandeira? Sabe quem é Patativa do Assaré? E Ariano Suassuna? Desconhece a existência do legado de Drummond? Se sim, tenho algo a dizer. Quer uma sugestão? Precisa mesmo? Se você não sabe o que fazer depois de ter lido o artigo até aqui, ligue a TV cara... De preferência, aquela de Plasma 89 polegadas que o mundo anunciou ser essencial ao conhecimento do próprio mundo de futilidades, alienações e frases feitas... Ou, faça o inverso: repense e revise conceitos. Vai te fazer um bem arretado. A você e ao mundo, acredite.

Um grande abraço a todos e até a próxima oportunidade se assim, o Deus de todo o conhecimento, ciência, mistério e sabedoria nos permitir.

Com carinho,

Renato Cunha (Sou ninguém não, exceto apenas um cara que se cansou de muita coisa nesta vida).





4 comentários:

João Coelho disse...

Renato,
infelizmente a falta de conhecimento e preparo cultural não ocorre somente nos arraiais cristãos. Tenho contato com muitos professores e o que tenho ouvido é alarmante. Nas escolas públicas existem crianças no ginásio que não sabem ler e as que sabem são na verdade analfabetos funcionais, elas lêem o que lhes é dado mais não conseguem interpretar o que leram; nas escolas particulares o que ocorre é um pouco melhor, mais ainda assim não é o ideal. Os alunos são preparados não para terem domínio do saber, poder pensar e serem formadores de opinião, mas são maciçamente preparados para o vestibular, essa é a única preocupação das escolas, ter um índice alto de aprovação para atraírem novos alunos. Isso significa que: “Isso cai no vestibular? Não? Então não me interessa!”

Esse vício do sistema educacional do nosso país tem gerado pessoas descompromissadas com o saber (as exceções confirmam a regra) que adentram as universidades sem nenhum preparo. Essa tem sido a queixa constante dos professores que converso.
Além disso acaba formando um espécie de indivíduo que não se interessa por poesia, filosofia, literatura...porque não “servem” pra nada (exceto as que caem no vestibular, se bem...que ler o resumo com comentário dos professores tem mais “eficácia”).

Esse ranço está na igreja, basta perceber, por exemplo, a aversão dos convertidos à Fé Reformada aos Símbolos de Fé. Há uma preguiça de pensar generalizado, há uma aversão ao que é sistemático, há aversão a doutrina. Tenho enfrentado isso no dia a dia.

E quanto a televisão? Esta vai bem obrigado, todos sabem o que ocorre nas novelas e já comentam que a nova novela das oito “Passione” será um sucesso!


Abraço.

Renato Cunha disse...

É por aí mesmo amigo João. Lamentavelmente, você nos amostra um outro lado da questão. Outro lado de uma triste realidade.

Eu sinto aquela sensação terrível e implacável de impotência que só Deus sabe exatamente o que é....

Abração cara.. Bom demais te rever por aqui. Acredite.

Heloísa disse...

Caro João, ainda para completar, devo dizer que esse é o mal do sistema tradicional de ensino: o que reduz a capacidade de desenvolvimento intelectual a quase pó. E qual é o resultado disso? A quase extinta "elite intelectual" escreve mal e pensa mal porque não lê. Chego a duvidir que haja jeito para o caos linguístico instaurado pelos dissidentes da boa regra literária. (risos)

Renato, aonde vamos com tanta ignorância, não é? Não vamos! Não se permanecermos ligados a essa "culturalienação" do brega de quinta, do sertanejo de oitava e das revistas que tratam da vida útil do vestido da celebridade em questão; elas que não sabem que "HÁ três anos ATRÁS" é uma redundância desnecessária, e ainda assim têm dinheiro para ir ao Museu de Louvre lá do outro lado do mundo. E olhe que estou falando da gramática! Se for falar dos jornais e livros não lidos, não saio daqui. (risos)

Heloísa.

João Coelho disse...

Heloísa,
Você está coberta de razão. O Brasil precisa de mais leitores...para que nasça uma elite cultural nova. A geração anterior foi brilhante e vigorosa, fico a pensar o que acontecerá quando morrer João Ubaldo Ribeiro, Ariano Suassuna, Caetano Veloso, Gilberto Gil, João Gilberto, Toquinho...quando estes forem ao pó como Ruy Barbosa, Jorge Amado, Vinicius, Tom Jobim, Vila-Lobos, Gilberto Freire etc. Os atuais membros da Academia Brasileira de Letras estão todos velhos, quem serão os substitutos (alguns que hoje estão só estão lá por falta de outros)? Quem serão os novos intelectuais do Brasil? Onde está aquela efervescência cultural dos anos 60 e 70? Quais as preocupações dos jovens além de se formar, ter bom emprego, bom partido? Como o país pode mudar sem sua “elite” de pensadores?

Como um país pode mudar sem ler, sem ter conhecimento...


Abraço.